A Cultura de cancelamento já chegou aos gestores?

Por Letícia Quental e Antônio Rezende

Em outubro de 2023, Paddy Cosgrave, líder e fundador da Web Summit, demitiu-se do cargo de diretor executivo, depois de uma tomada de posição pública em que considerou a reação bélica do exército israelita na Faixa de Gaza face ao massacre a 7 de outubro de 1400 civis pelos terroristas do Hamas como “um crime de guerra”.

Devido a essa opinião, o Governo de Israel avançou com um boicote à Web Summit, ao qual se seguiram a Google, Meta, Amazon, Intel, e Siemens, entre outras marcas. Consequentemente, Paddy Cosgrave viu-se “obrigado” a demitir-se.

Mas será este caso único? Claro que não! O cancelamento nas redes sociais tornou-se uma poderosa ferramenta de pressão, capaz de influenciar o destino de gestores e CEO’s de grandes empresas. A era digital trouxe consigo a capacidade de mobilizar grandes grupos de pessoas em torno de causas e indignações, resultando em consequências significativas no mundo corporativo. Alguns exemplos notáveis ilustram como a força das redes sociais pode levar à demissão de líderes empresariais.

Um caso emblemático ocorreu em 2020, quando o CEO da CrossFit, Greg Glassman, enfrentou um escrutínio intenso após fazer comentários insensíveis sobre o movimento Black Lives Matter, durante um período de agitação social nos Estados Unidos. Em resposta, diversos atletas e afiliados da CrossFit manifestaram-se nas redes sociais, denunciando a postura de Glassman. O movimento ganhou força e resultou em uma onda de cancelamento, forçando Glassman a renunciar ao cargo de CEO.

Outro exemplo marcante envolveu o CEO da MyPillow, Mike Lindell, em 2021. Lindell, um ardente apoiante do então presidente Donald Trump, viu a sua reputação ser posta em causa após alegações de fraude nas eleições presidenciais. Plataformas como o Twitter e o Facebook suspenderam as contas de Lindell devido à disseminação de desinformação. A pressão nas redes sociais e o boicote de retalhistas importantes levaram à retirada dos produtos MyPillow de diversas lojas e contribuíram para uma queda na credibilidade empresarial da marca e do empresário.

Casos como o da Away, uma empresa de malas de viagem, também demonstram a rapidez com que o cancelamento nas redes sociais pode afetar líderes corporativos. Steph Korey, a co-fundadora e então CEO da Away, enfrentou críticas intensas após a publicação de um artigo que descrevia uma cultura de trabalho tóxica na empresa. A repercussão nas redes sociais foi avassaladora, levando Korey a renunciar ao cargo de CEO, embora tenha permanecido na empresa em uma posição diferente.

A prática do cancelamento nas redes sociais não está isenta de controvérsias, e surge a questão de se pessoas e marcas devem ser indiscriminadamente incluídas no mesmo “saco” de cancelamento. Enquanto algumas situações envolvem transgressões sérias que merecem uma resposta firme por parte da comunidade online, há um debate em torno da proporcionalidade e da justiça nas ações de cancelamento a pessoas individuais.

É essencial distinguir entre casos em que o cancelamento é uma resposta legítima a comportamentos prejudiciais, e situações em que pode ser explorado como uma estratégia de concorrência desleal. Assim, a vigilância crítica sobre o cancelamento nas redes sociais também se deve estender à avaliação da autenticidade das motivações por trás dessas ações. A linha ténue entre a responsabilidade social e a manipulação do cancelamento como uma arma competitiva destaca a necessidade de discernimento por parte dos consumidores e da comunidade online. Enquanto o cancelamento legítimo pode ser uma ferramenta poderosa para promover mudanças positivas, é crucial evitar o abuso desse fenómeno, garantindo que as ações se baseiem em princípios éticos e na busca genuína por justiça. Este equilíbrio delicado entre responsabilidade social e concorrência leal continuará a ser um ponto de discussão à medida que as dinâmicas nas redes sociais evoluem.

Deste modo, cada vez mais os gestores e CEO’s têm de estar atentos não apenas às operações das suas empresas, mas também à maneira como as suas ações e declarações são interpretadas online, já que o poder das redes sociais está a moldar o cenário corporativo de uma maneira sem precedentes.

Fontes:

https://expresso.pt/sociedade/tecnologia/2023-10-21-Paddy-Cosgrave-demite-se-mas-garante-que-Web-Summit-de-2023-vai-realizar-se-em-Lisboa-como-planeado-f12bd82e

https://ge.globo.com/outros-esportes/noticia/fundador-e-ceo-do-crossfit-renuncia-apos-dizer-a-sua-equipe-nao-estamos-lamentando-por-floyd.ghtml

https://exame.com/negocios/ceo-e-banido-do-twitter-por-insistir-em-vitoria-de-trump/

https://www.axios.com/2020/10/15/steph-korey-steps-down-as-aways-ceo-again

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